quarta-feira, 2 de julho de 2014

Capítulo XXX - Enmanuel

Paraíso, cinco anos antes de Cristo.

Em algum lugar no Castelo de Júpiter, no quinto reino celestial, fica o acesso ao Solarium. Exclusivo aos arcanjos, a Fortaleza do Sol, como também é conhecida, é o centro do universo. Uma construção feita inteiramente com material único, tão quente e brilhante como a própria estrela mestra do sistema solar. Tal característica permite apenas que os arcanjos consigam entrar na fortaleza sem serem imediatamente destruídos. Nem mesmo Metatron, o mais antigo e poderoso serafim, é capaz de se aproximar do Solarium sem se ferir.
Era o lugar perfeito para que os arcanjos pudessem confabular sem serem incomodados. Já no salão central, o arcanjo Gabriel encontrou-se com aquele que lhe tinha convocado.
- Enmanuel, meu irmão. - disse o arcanjo de pele morena, olhos verdes e aparência sábia. Gabriel era conhecido como O Mensageiro de Deus, A Força de Deus e diversas outras alcunhas.
- Gabriel. - respondeu o Primogênito. - Que bom que tenha atendido ao meu pedido. E que bom que veio sozinho e não contou para nenhum de nossos outros irmãos.
- Confesso que ainda acho estranho. - desabafou Gabriel. - Você está desaparecido, trancado aqui no Solarium há  tanto tempo, desde...
- Desde que eu tive que expulsar nosso irmão. Desde a queda de Lúcifer... - Gabriel viu a tristeza se espalhar pelo rosto do irmão. Enmanuel era o mais pacifista, o mais tranquilo dos arcanjos, avesso a qualquer tipo de violência. Mas também era o mais poderoso, o segundo na escala universal, abaixo apenas do próprio Deus. E foi o único que conseguiu parar Lúcifer e liderar os demais anjos contra uma força de um terço dos demais celestiais do Paraíso que se rebelaram.
- Não foi sua culpa, irmão. - Gabriel tentou consolá-lo. - Lúcifer fez sua escolha, quando quis ser maior que nosso Pai. Ele teve o que merecia, e agora vai pagar por isso até o Altíssimo desperte e o julgue como necessário.
- Não é só ele que está pagando. As almas humanas que ele tem arrastado para seu reino sombrio. - Enmanuel tinha a voz desolada. - Você consegue ver daqui, os castigos que ele inventou? Antigamente, as almas que não mereciam adentrar ao Paraíso eram testadas no Purgatório. Se após um tempo de expiação elas se mostrassem merecedoras, tinham acesso. Se não, voltavam para o fluxo do cosmo e tinham uma nova chance, nascendo novamente, reencarnando. Mas agora Lúcifer arrasta os malignos para seu... Inferno, e lá eles ficam piores do que chegaram. Alguns dominiis dizem que eles estão formando um exército gigantesco com almas corrompidas, novos demônios.
- Esta é a escolha dos próprios humanos, Enmanuel. - respondeu o Mensageiro, convicto. - Este é o preço do livre arbítrio que nosso Pai os concedeu. Cabe a nós apenas orientar para que eles sigam o caminho da luz.
- Mas não percebe? Não estão seguindo! O mundo está cada vez pior, Gabriel. E essa é a desculpa que Miguel precisa para ordenar mais um cataclismo. Ele argumentará que os exércitos de Lúcifer só aumentam com seus novos recrutas, e que o melhor a se fazer será apagar a humanidade e obliterar nosso irmão enquanto pode. Ele nunca concordou com o banimento dele, sempre quis que o executássemos.
- Talvez... - o arcanjo hesitou. - Me perdoe a ousadia, mas talvez ele tenha razão, irmão. Nós mesmos, com nossas escolhas erradas, podemos ter dado a munição para o mal.
- O que quer dizer? Por favor, seja sincero. - Enmanuel pediu, deixando claro em seu tom de voz que não censurava o irmão.
- Enmanuel, quando assinamos o acordo que findou as Guerras Mitológicas, deixamos que os humanos escolhessem a quem cultuar. E nem todo culto ensina que eles devem se comportar de maneira digna o suficiente para merecer o Paraíso. Quando tentamos destruir a civilização com o dilúvio, plantamos um sentimento de ódio pelos celestiais em muitos corações. E quando optamos por expulsar ao invés de destruir Lúcifer, é claro que demos a ele a oportunidade de corromper nossa criação, tudo que fizemos ao lado de Deus.
- Concordo em parte com você, Gabriel. - Enmanuel sorriu. - Mas eu ainda acredito na humanidade, acredito que possamos vencer essa disputa pelas almas... Foi por isso que o chamei aqui. Preciso de sua ajuda.
- Do que precisa?
- Há séculos, sozinho aqui, eu venho pensando nisso. Eu acho que temos que orientar os humanos diretamente. E quando eu digo diretamente, estou sendo literal. Um de nós precisa descer até a Terra e mostrar o caminho correto.
- Não podemos, Enmanuel. - Gabriel retrucou sem pestanejar. - E você deveria saber disso muito bem. Se nos materializarmos, mesmo que consigamos suprimir nossa aura ao máximo, ainda assim a nossa presença é capaz de afetar a realidade e acabar com a alma de qualquer pessoa próxima.
- Eu sei bem disso, mas eu não pretendo apenas me materializar.
- E o que tens em mente? - Gabriel não fazia ideia das intenções do irmão.
- A minha é assumir totalmente a forma humana. Desde a concepção até o nascimento, desde o início até o fim da vida.
- Você... - Gabriel estava pasmo. - Você não pode estar falando sério! Isso nunca foi feito! Eu nem consigo imaginar!
- Eu sei como fazer, e preciso da sua ajuda. Dentre nós, você é especialista em agir no plano astral. Você consegue interagir com as pessoas através dos sonhos. Irei me fundir a você, e tu irás plantar a semente, eu, no ventre de uma mulher. Uma que irei escolher.
- Quer que eu... Quer que eu tenha relações com uma humana através do mundo dos sonhos? - ele começava a duvidar da sanidade do irmão, mesmo sabendo que ele era o mais perfeito entre eles.
- É difícil pedir isso, mas é a única maneira. Além de não poder se relacionar com ela pelo plano físico por causa de sua aura gigante, isso me transformaria em um nefilin, como foram os filhos de Samyaza. Mas a interação direta com ela pelo astral impedirá que a força de sua aura a prejudique. Ou a mate.
- Esse não é o único problema, Enmanuel! - o Mensageiro não estava acreditando no que ouvia. - Se você encarnar totalmente em um corpo mortal desde o ventre de uma mulher, você será mortal! Irá perder grande parte de seus poderes, senão todos! Nenhum anjo nunca fez algo parecido, mas eu sei que você será um simples mortal! E com isso, um dia irá morrer! E se você morrer, eu não sei o que acontecerá com sua alma!
- Eu confio em sua sabedoria, eu também sei disso. - respondeu Enmanuel, com tranquilidade. - Eu tenho vislumbres do futuro, sei o que irá acontecer, e estou convencido que é o certo.
- E o que Miguel fará quando descobrir? Só a sua presença no Paraíso o mantêm sob controle. Se você for, tudo ficará sob o governo dele, já que ele é o segundo filho. O que o impedirá de matar seu corpo mortal? Ele nunca lhe perdoou pelo acordo com os deuses pagãos ou por ter poupado a vida de Lúcifer. O que o impedirá também de convencer Uriel mais uma vez a causar uma hecatombe que destrua toda a raça humana?
- Nossa irmã caçula está diferente. - Enmanuel disse, com confiança. - Ela não será mais persuadida pela fúria de Miguel com facilidade. Rafael segue a mesma linha de pensamento que a minha, mas ele não é o mais indicado para me ajudar. Apenas você pode, Gabriel, e eu sei que vai.
- É claro que sabe... Tudo bem. - finalmente capitulou. - Eu aceito. Ainda não considero uma boa ideia, mas aceito. Já tem alguma mulher humana escolhida?
- Sim. Há tempos eu tenho inspirado os profetas humanos a predizerem sobre a minha ida ao mundo mortal. Vou lhe mostrar quem é ela, e faremos o quanto antes. Não há mais tempo a perder.
- Qual é nome dela?
- A chamam de Maria. Uma jovem de Nazaré.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Capítulo XX - O Império dos Guardiões

Atlântida, 10 mil anos antes de Cristo.


Sempre que alguma coisa é criada, dizem que ela evolui para melhor com o tempo. Por isso, sempre o que é feito por último é feito com mais carinho, onde as imperfeições são eliminadas e as qualidades, enaltecidas.
Na criação do universo não foi diferente. O ser humano, a maior inspiração de Deus, foi a última espécie viva a ser criada. E mesmo na criação do homem, primeiro foi feito o macho, e depois, a fêmea. A mulher, obra mais sublime de Deus. Mesmo entre os arcanjos, Uriel, a única em forma feminina, foi criada por último antes do Big Bang que deu origem ao universo. E ela, com seus poderes trans morfos se torna uma das criaturas mais belas da existência. E com a mulher humana Deus caprichou mais ainda. A primeira possuidora de alma, Lilith, de tão perfeita adquiriu soberba e foi expulsa do Jardim do Éden, sendo capaz de seduzir o arcanjo Lúcifer e ser responsável pela perdição de Adão e Eva tempos depois. Mas Lúcifer não foi o único celestial a ser seduzido pela figura feminina. Durante milhares de anos, vez ou outra, anjos observavam as humanas e se apaixonavam, formando famílias e criando filhos. Essa prática era condenada, principalmente por Miguel, que abominava a humanidade desde que Deus partiu para o descanso no final do sexto dia da criação. Mas apenas se tornou proibida após o acordo que findou as Guerras Mitológicas, quando Enmanuel, o arcanjo supremo, decretou a lei que impedia que qualquer ser superior, anjo ou deus pagão, copulasse e gerasse filhos em mulheres mortais.
Mas como em toda lei, sempre há alguém para burlar. Samyaza, um valoroso serafim da casta virtutes, estava sempre perambulando pela Terra ou plano astral, orientando as almas perdidas e ensinando as pessoas a amarem a Deus e ao próximo. Mas quando ele conheceu uma bela e bondosa mulher dos desertos árabes, seu coração caiu em enorme tentação. Não resistindo, ele descumpriu a lei celestial e formou uma família, incentivando vários seguidores, serafins e querubins das mais diferentes castas a fazer o mesmo. Para eles, aquele era o maior louvor que poderiam prestar a Deus, confraternizando de maneira espiritual e carnal com a sua mais perfeita criação, a mulher. Para esconderem seus crimes e protegerem seus filhos, Tamiel, serafim da casta principatus e poderoso mago celestial, ensinou aos demais anjos a suprimira aura a ponto de desaparecer do radar celestial, assim como proteger suas crias, disfarçando seus poderes como magia comum, embora muito mais poderosa e formidável.
Gerações se passaram, e os nefilins, como eram chamados os descendentes dos anjos, fundaram o império de Atlântida. Localizado em uma ilha do gigantesco mar que seria mais tarde conhecido como oceano Atlântico, o Império de Atlântida, ou Império dos Guardiões, era de longe a nação mais avançada do mundo na época. Misturando magia e tecnologia, os atlantes eram capazes de criar equipamentos e ergueram cidades não somente nas ilhas, mas colônias em todo o velho continente ao leste. E assim eles teriam vivido por toda eternidade, não fosse a sagacidade daquele que era considerado a mente mais aguçada do universo. De alguma maneira, Lúcifer descobriu o segredo dos atlantes, e pretendia em breve fazer uma visita ao seu imperador.
*
Sozinho em seu palácio, admirando a luz do luar banhar seu reino de maneira esplendorosa, Samyaza observava cada pedaço de terra, planta e mármore branco de que era feito seu país. Na forma humana, era um homem loiro de feições másculas, alto e imponente, mas também era um rei bondoso e adorado pelos súditos. Atravessando o salão principal de sua morada, que tinha mais de quinhentos metros apenas o átrio, Samyaza sentiu um abalo no barreira espiritual. Uma aura imensa se formava, alguma entidade mais poderosa do que ele estava neste momento passando do astral para o plano físico. Ao olhar para trás, caiu prostrado de joelhos ante a majestade do visitante.
- Arcanjo Lúcifer? - perguntou o imperador atlante, ao reconhecer seu visitante noturno, um anjo de enormes asas brancas e beleza anormal, de tão divina.
- Olá, Samyaza. Faz muito tempo desde que nos vimos pela última vez. - respondeu o Portador da Luz, com sua voz melodiosa.
- A que devo a honra inenarrável da visita? Se eu soubesse...
- Não poderia fazer nada. - cortou ele. - Resolvi aparecer quando todos estão dormindo, porque infelizmente a minha aura é tão poderosa que desprenderia imediatamente do corpo a alma de qualquer mortal que se aproximasse, além de queimar seus olhos ante a visão de minha face perfeita.
Era verdade, Samyaza pensou. Lúcifer fora benevolente, se aparecesse durante o dia, perto de sua nova esposa e filhos, todos ficariam cegos, loucos ou morreriam.
- Em que posso ser útil, meu senhor?
- Ah, Samyaza, meu querido... - Lúcifer recolheu as asas e caminhou pelo salão, admirando o próprio reflexo no chão polido. - Acho que já imagina porque estou aqui. Ou pensou que ninguém fosse encontrá-los um dia? Você e todos aqueles que o seguiram cometeram um crime grave. Violaram um dos termos assinados no acordo que pôs fim as Guerras Mitológicas, milhares de anos atrás. Lembra-se?
O coração do atlante acelerou. Era verdade, ele sabia muito bem disso. E nada poderia fazer, Lúcifer, com todo seu poder de arcanjo, poderia vaporizá-lo com um só dedo. Samyaza resolveu arriscar uma outra abordagem, mais ousada que o ataque físico.
- Pensei que, dentre os celestiais, o senhor entenderia. - Lúcifer o encarou, fingindo confusão. - A mortal Lilith. A Serpente do Éden, meus súditos a encontraram para lá do Eufrates. O senhor se apaixonou e deu a ela os poderes para tentar Eva e Adão, não foi?
Lúcifer sorriu. Claro que eles tinham encontrado Lilith, ele sabia. Afinal, ainda a mantinha como amante, escondendo-a em uma fortaleza igualmente invisível graças a seus poderes. E foi a própria Lilith que seguiu os atlantes e contou para Lúcifer o que descobrira.
- Mas eu entendo, meu caro, por isso estou aqui. Acha que se fosse Miguel, seu amado império já não estaria em chamas? Se ele descobrir o que se passa, em segundos suas legiões de dominiis estarão sobrevoando e incendiando cada pedaço desse belíssimo mármore branco, o que seria um enorme desperdício.
Samyaza começara a entender. Lúcifer era ardiloso, inteligente e impossível de ser ludibriado. Na certa ele apareceu ali secretamente, sem mesmo contar aos demais arcanjos, para propor algum acordo ou exigir algo em troca de seu silêncio. Mas o que ele, um serafim que agora se considerava mais humano do que tudo, poderia oferecer à um arcanjo da magnitude da Estrela da Manhã?
- O que deseja, milorde? Como posso eu, humilde servo, interceder em favor de meus súditos, para que eles não enfrentem a injusta fúria celestial?
Satisfeito consigo mesmo, Lúcifer revelou sua proposta. Mas, embora já esperasse, não pode esconder sua decepção ante a negativa de Samyaza.
- Meu senhor, eu sinto muito mas não posso. Considero isso impossível, na verdade, e mesmo que fosse possível, é algo que traria um transtorno enorme a todo o universo. Além de ser a mais vil das traições. - ele respondeu, sabendo que estava assinando seu atestado de morte. Mas era o certo a se fazer.
- Ora, não me venha falar de traição! - Lúcifer ficou indignado, mas não libertou sua aura, temendo desintegrar o palácio. - Ah, Samyaza, eu tenho virtudes e defeitos. Mas se tem uma coisa que eu não muito, é ser paciente. Sou justo, sou o patrono dos anjos juízes, e não vejo escolha a não ser evocar a lei. Tentei propor um acordo, mas você cuspiu em minha mão amiga. Eu sinto muito. - e desapareceu, levando com ele a esperança de um futuro para Atlântida.
Tempos depois, uma tempestade torrencial castigou o mundo, junto com o derretimento dos polos glaciais e maremotos com dezenas de metros de altura. Ao mesmo tempo, o arcanjo Miguel, furioso mas ao mesmo tempo satisfeito, agrilhoava no topo do Palácio de Pérola tanto Samyaza quanto seu séquito de derrotados.
- Contemplem! - disse ele, erguendo o queixo do imperador atlante e o obrigando a olhar para seu reino em chamas, enquanto uma tsunami colossal se aproximava. - Esse é o destino dos traidores. Mas pior do que um traidor, é um fraco! Todos morrerão! Seus filhos, netos e todos aqueles frutos de sua relação fraca com essas descendentes de macacos! Mas não só eles, todos esses indignos perecerão, afogados! E eu provarei à Enmanuel e Rafael que eles estão errados, o tal de Noé e sua família não sobreviverão em um mundo vazio! Contemple o seu império afundar, Samyaza!

E assim, após catástrofes, maremotos e tsunamis, Atlântida foi para o fundo do oceano e nunca mais emergiu.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Capítulo X - As Guerras Mitológicas

Paraíso, 14 mil anos atrás.


Quando dizem que a fé pode mover montanhas, não é apenas uma força de expressão, é um fato! Houve um tempo em que, durante os primeiros passos da civilização humana, pessoas se destacaram em suas aldeias, cidades e povos por seus grandes feitos, seja combatendo os inimigos rivais ou por outros atos heroicos. Essas pessoas, após a morte, continuaram sendo veneradas e solicitadas no auxílio dos vivos, fosse para curar doenças, inspirar em batalhas, qualquer que fosse a ajuda. Como durante este tempo a alma dos mortos ainda não era admitida no Paraíso, por decreto dos arcanjos, o culto e a consciência humana deram a essas almas dos mortos grande poder, e assim eles se tornaram os deuses da antiguidade.
Em locais onde o plano físico e o mundo espiritual se conectavam, os tais deuses conseguiam interagir e se comunicar com seus servos, e no reino espiritual eles criaram verdadeiros impérios, que não demorou muito para começar a incomodar de verdade os arcanjos, que se consideravam únicos dignos de adoração, já que eram filhos diretos de Deus, e não almas evoluídas. Miguel, irado como sempre, inciou uma campanha bélica que foi chamada de Guerras Mitológicas, e durante milênios os anjos combateram os deuses “pagãos” em seus territórios. Algumas batalhas eles venceram, mas outras, a maioria, foram vergonhosamente derrotados. Nem mesmo quando os próprios arcanjos Miguel, Lucifer, Gabriel e Uriel resolveram ir na linha de frente, conseguiram derrotar completamente espíritos poderosos como Zeus, Rá e Odin. Enmanuel poderia ter dado a vitória final aos arcanjos, mas era pacifista e se recusava a sair do lado dos aposentos onde o Criador estava adormecido.
E então, como em toda guerra, em certo ponto a situação ficou insustentável. Mas os arcanjos, arrogantes e confiantes em seus poderes, jamais capitulariam. A não ser com a proposta, que a própria Uriel recebeu.
Ela estava em seus aposentos, confraternizando com seus subordinados em Luna, primeiro distrito celestial, quando seu fiel escudeiro, o serafim Menadel, lhe deu a notícia.
- Minha senhora, - disse o anjo de seis pares de asas, porte atlético e pele morena. - Um mensageiro dos pagãos está aqui, nas portas do Paraíso.
- Quem? Quem ousa? - ela perguntou, levantando-se irada e mudando o tom de suas roupas das tranquilas águas para o fogo irado.
- Ele se apresentou como Hermes, mensageiro dos deuses olimpianos.
Uriel se acalmou, voltando ao tom azul. Ela tomou postura, ordenou que Menadel escoltasse o visitante até ela e prometeu a si mesma tratá-lo com toda a educação que um mensageiro merece, seja quem ele fosse.
- Bem vindo. - disse ela, abrindo os braços. Seu tom agora era o verde das florestas, com pétalas multicoloridas dançando ao seu redor.
- É uma honra conhecê-la pessoalmente. - respondeu o homem, um jovem magro, usando toga branca curta e com pequenas asas saindo de seu capacete e sandálias. - Meu nome é Hermes, filho de Zeus e mensageiro dos deuses olimpianos.
- À que devo a visita, senhor Hermes? - perguntou a arcanjo, curiosa.
- Serei sucinto, minha senhora, pois o tempo é curto, e sangue continua sendo derramado enquanto falamos. Trago uma proposta vinda não somente dos lordes olimpianos Zeus, Poseidon e Hades, mas também um desejo vindo de deuses importantes como Rá, Odin, Amaterasu, Shiva e tantos outros.
- Todos eles se reuniram? Quando?
- Não saberia informar, foi uma reunião de cúpula. Mas eles desejam falar pessoalmente com todos os arcanjos. Se possível aqui mesmo, no reino de vocês, onde os anfitriões ditam os termos. Lógico que, somente com uma promessa de salvo conduto.
- E porque nós faríamos isso? - Uriel desafiou. Seu tom foi se avermelhando vagarosamente, e as folhas e flores em suas vestes foram incendiando.
- Minha senhora, sou apenas um mensageiro, mas se me permite a ousadia, repetirei as palavras exatas de meu tio Hades; Ou vocês aceitam a reunião e o acordo de paz que será proposto, ou todos os deuses se unirão em um único exército e atacarão com todas as forças o Paraíso, aniquilando não somente os anjos, mas agindo na Terra e destruindo seus seguidores.
Uriel não podia acreditar no que ouvia. Até que ponto a petulância daqueles espíritos inferiores poderia chegar? Eles era almas humanas evoluídas com as preces dos vivos, mas nunca poderiam fazer frente aos arcanjos, filhos diretos do próprio Criador do universo. Sua resposta seria imediata, ela iria incinerar aquele mensageiro com sorriso zombeteiro e enviar seu corpo carbonizado à seu pai, que auto proclamava deus dos raios, mas nunca seria capaz de criar descargas elétricas como ela.
Porém, antes de executar sua decisão, alguém impediu sua mão de se erguer com a força do pensamento. Ela olhou para trás e sentiu a aura imensamente superior de seu irmão mais velho, o Primogênito, Enmanuel.
- Diga a Zeus e aos outros que a reunião está marcada. - disse Menadel, surgindo das sombras do palácio de Uriel, usando sua costumeira toga branca com uma faixa vermelha. - Tratarei com meus irmãos sobre a melhor data e o local.
Hermes acenou positivamente com a cabeça, reverenciando aquela entidade que era ao mesmo tempo calma e poderosa. Ele mostrou um pergaminho mágico onde o receptor da mensagem deveria assinar, concordando com a reunião. Enmanuel prontamente rubricou e autorizou a saída de Hermes do Paraíso sem que ele fosse molestado.
- O que você fez, irmão? - perguntou Uriel, finalmente sentido a mão livre. Ainda estava flamejante.
- Eu que pergunto o que pretendia fazer, irmã? - ele retrucou calmamente. - Se tivesse atacado um mensageiro, protegido pelas leis universais de hospitalidade, teria declarado uma guerra cósmica de proporções inimagináveis!
- Que leis universais? - ela debochou. - Nós somos a lei! Nós somos a palavra! O Pai nos escolheu, e eles deveria nos venerar antes de se tornarem uma imitação e chamarem a si mesmo de deus! Que piada de mau gosto!
- Não é assim que funciona. Um dia vocês entenderão, principalmente você, querida irmã. - ele já ia se retirando.
- Sabe que Miguel e Lúcifer não vão gostar nada dessa sua decisão sem que fossem consultados, não sabe?
- Deixe que eu cuido de apaziguar os ânimos de nossos irmãos impetuosos. - ele respondeu, sorrindo.
*

O local escolhido para a mais importante reunião do universo até aquele momento foi um salão especialmente construído no Castelo de Júpiter, um gigantesco castelo localizado no quinto reino celestial, logo abaixo do Solarium, a morada de Deus. O salão foi divido em bancadas dispostas como escadas, com centenas de assentos para todos os deus que resolveram participar da reunião. De frente a essas bancadas, sentados em seus seis tronos magistrais, estavam os arcanjos. No nível mais próximo deles, logo de frente, sentavam-se Zeus, Odin, Rá, Vishnu, Ahura Mazda, Amaterasu e outros deuses principais das diversas mitologias de todo o velho mundo. Todos falavam, riam ou discutiam, quando Enmanuel se levantou e pediu silencio, prontamente atendido.
- Eu declaro aberta a Reunião Celestial! - disse ele, levantando ligeiramente as mãos. - Pai, nosso senhor e criador, peço que abençoe esse encontro e nos inspire a encontrar a paz! Com a palavra, o representante dos olimpianos, Zeus!
O rei dos olimpianos e deus dos raios, Zeus, um homem de barba e longos cabelos grisalhos, que na verdade eram formados por nuvens, exibia um porte físico invejável. Se levantou com toda imponência e foi até o centro da rotunda, de onde poderia falar tanto para os deuses quanto para os anjos.
- Obrigado pela saudação, senhor Enmanuel. Que a luz do Criador nos abençoe neste momento sublime. Senhoras e senhores! - sua voz soava como trovão. - Venho representando não somente meus irmãos e parentes olimpianos, mas também aqueles que vieram do norte gelado, do sul desértico, do extremo oriente e de todo o mundo conhecido, implorar para que esta guerra sem sentido termine de maneira pacífica. Vivemos em um mundo diversificado, deixado para nós pela divina providência do criador. Nós, deuses, fomos agraciados com o poder pelas preces de nossos compatriotas, mas nem por isso deixamos de ensinar que há apenas um Deus verdadeiro que deve ser realmente glorificado. Somos todos irmãos, e filhos da mesma força que rege o universo, e uma guerra onde cada vez mais de nós encontramos a morte final é uma carnificina inútil que deve ser deixada de lado em honra à Ele o quanto antes! - o fim do discurso foi coroado com uma salva de palmas de quase todos os deuses pagãos. Pelo menos os que queriam a paz. Do lado dos arcanjos, apenas Enmanuel e Rafael aplaudiram discretamente. Quando Zeus deixou a tribuna, Miguel se levantou, para falar pelo lado dos celestiais. Era um guerreiro com o mesmo porte físico de Zeus, mas se assemelhava aos extremo orientais. Seus cabelos eram lisos e curtos, os olhos amendoados e ariscos, sempre prontos a identificar um inimigo. Como característica mais marcante, usava uma armadura de combate completa, e quase nunca tirava a mão de sua arma, a Espada do Fogo Eterno, uma lâmina forjada antes mesmo do universo e cuja chama jamais se apagava.
- Senhoras e senhores, - começou o discurso como Zeus, mas sua voz era bem menos amistosa, apesar de ser igualmente potente. - é de conhecimento de todos que não fomos nós, os arcanjos, filhos diretos de Deus, que começamos esta guerra. Quem iniciou o combate foram aqueles que, em um ato de total blasfêmia e heresia, se auto proclamaram deuses! Humanos, as últimas criaturas do universo, que por seus atos de bravura, não vou negar, após a morte continuaram sendo cultuados! Ora, dizem que ainda ensinam aos seguidores vivos os louvores ao Criador único e Altíssimo, mas eu não vejo nenhum templo erguido para nosso Pai em suas terras! Eu não ouço o nome Jeová, Yaweh, Demiurgo na boca de seus seguidores, apenas Urano, Pan Ku, Brahma e outras alcunhas que nada tem a ver com a natureza benevolente de nosso Deus único e verdadeiro! Nós, anjos e arcanjos, fomos designados por Ele próprio para sermos defensores ferrenhos da Palavra, e nenhum falso deus deve ser cultuado além Dele! - o arcanjo terminou com um murro na bancada. Um urro seguiu-se, uma mistura de apoio e indignação. Nenhum dos arcanjos se manifestou, embora um sorriso pudesse ser visto nos lábios de Uriel.
A reunião seguiu-se por muito tempo, dias ou séculos, o tempo era relativo no Paraíso. Quase todos tiveram voz na tribuna, uns defendendo a paz, outros a guerra e a destruição da facção rival. Ao final de intensos debates, Enmanuel, a quem nenhum ali presente era tolo de desafiar, mais uma vez ergueu-se e pediu silencio com as mãos levantadas.
- Por votação, assim decidiremos. Quem é a favor do prosseguimento da campanha militar e disputa territorial através da supremacia bélica, levante a mão direita!
Das centenas de entidades ali presentes, poucos levantaram aos mãos apoiando. Entre os arcanjos, Miguel e Uriel apenas, e a abstenção de Lúcifer e Gabriel, até o momento ao lado do irmão combatente, foi uma surpresa. Entre os deuses, poucas mãos também foram erguida, a maioria pelos considerados deuses da guerra, combate ou trevas. Hades, Ares, Set, Thor, Shiva, dentre outros.
- Quem é a favor do acordo que determina que, a supremacia deverá ser decidida através dos cultos humanos, e que a função dos deuses ou anjos deverá ser apenas inspirar e orientar, jamais interferindo ou se relacionando com homens e mulheres mortais, levante a mão direita!

A visível maioria esmagadora levantou a mão, embora esta última parte do acordo, determinada de surpresa, tenha incomodado deuses como Zeus, Afrodite e Ishtar, conhecidos por seus relacionamentos amorosos com mortais. E assim, após uma reunião longa e importante, as Guerras Mitológicas chegaram ao fim com um cessar fogo assinado por todos ali presentes, e até hoje é possível ver naquela mesma rotunda, no Castelo de Júpiter, um quadro onde Enmanuel e Zeus trocaram um caloroso aperto de mãos selando a paz.

quarta-feira, 9 de abril de 2014