sexta-feira, 11 de abril de 2014

Capítulo X - As Guerras Mitológicas

Paraíso, 14 mil anos atrás.


Quando dizem que a fé pode mover montanhas, não é apenas uma força de expressão, é um fato! Houve um tempo em que, durante os primeiros passos da civilização humana, pessoas se destacaram em suas aldeias, cidades e povos por seus grandes feitos, seja combatendo os inimigos rivais ou por outros atos heroicos. Essas pessoas, após a morte, continuaram sendo veneradas e solicitadas no auxílio dos vivos, fosse para curar doenças, inspirar em batalhas, qualquer que fosse a ajuda. Como durante este tempo a alma dos mortos ainda não era admitida no Paraíso, por decreto dos arcanjos, o culto e a consciência humana deram a essas almas dos mortos grande poder, e assim eles se tornaram os deuses da antiguidade.
Em locais onde o plano físico e o mundo espiritual se conectavam, os tais deuses conseguiam interagir e se comunicar com seus servos, e no reino espiritual eles criaram verdadeiros impérios, que não demorou muito para começar a incomodar de verdade os arcanjos, que se consideravam únicos dignos de adoração, já que eram filhos diretos de Deus, e não almas evoluídas. Miguel, irado como sempre, inciou uma campanha bélica que foi chamada de Guerras Mitológicas, e durante milênios os anjos combateram os deuses “pagãos” em seus territórios. Algumas batalhas eles venceram, mas outras, a maioria, foram vergonhosamente derrotados. Nem mesmo quando os próprios arcanjos Miguel, Lucifer, Gabriel e Uriel resolveram ir na linha de frente, conseguiram derrotar completamente espíritos poderosos como Zeus, Rá e Odin. Enmanuel poderia ter dado a vitória final aos arcanjos, mas era pacifista e se recusava a sair do lado dos aposentos onde o Criador estava adormecido.
E então, como em toda guerra, em certo ponto a situação ficou insustentável. Mas os arcanjos, arrogantes e confiantes em seus poderes, jamais capitulariam. A não ser com a proposta, que a própria Uriel recebeu.
Ela estava em seus aposentos, confraternizando com seus subordinados em Luna, primeiro distrito celestial, quando seu fiel escudeiro, o serafim Menadel, lhe deu a notícia.
- Minha senhora, - disse o anjo de seis pares de asas, porte atlético e pele morena. - Um mensageiro dos pagãos está aqui, nas portas do Paraíso.
- Quem? Quem ousa? - ela perguntou, levantando-se irada e mudando o tom de suas roupas das tranquilas águas para o fogo irado.
- Ele se apresentou como Hermes, mensageiro dos deuses olimpianos.
Uriel se acalmou, voltando ao tom azul. Ela tomou postura, ordenou que Menadel escoltasse o visitante até ela e prometeu a si mesma tratá-lo com toda a educação que um mensageiro merece, seja quem ele fosse.
- Bem vindo. - disse ela, abrindo os braços. Seu tom agora era o verde das florestas, com pétalas multicoloridas dançando ao seu redor.
- É uma honra conhecê-la pessoalmente. - respondeu o homem, um jovem magro, usando toga branca curta e com pequenas asas saindo de seu capacete e sandálias. - Meu nome é Hermes, filho de Zeus e mensageiro dos deuses olimpianos.
- À que devo a visita, senhor Hermes? - perguntou a arcanjo, curiosa.
- Serei sucinto, minha senhora, pois o tempo é curto, e sangue continua sendo derramado enquanto falamos. Trago uma proposta vinda não somente dos lordes olimpianos Zeus, Poseidon e Hades, mas também um desejo vindo de deuses importantes como Rá, Odin, Amaterasu, Shiva e tantos outros.
- Todos eles se reuniram? Quando?
- Não saberia informar, foi uma reunião de cúpula. Mas eles desejam falar pessoalmente com todos os arcanjos. Se possível aqui mesmo, no reino de vocês, onde os anfitriões ditam os termos. Lógico que, somente com uma promessa de salvo conduto.
- E porque nós faríamos isso? - Uriel desafiou. Seu tom foi se avermelhando vagarosamente, e as folhas e flores em suas vestes foram incendiando.
- Minha senhora, sou apenas um mensageiro, mas se me permite a ousadia, repetirei as palavras exatas de meu tio Hades; Ou vocês aceitam a reunião e o acordo de paz que será proposto, ou todos os deuses se unirão em um único exército e atacarão com todas as forças o Paraíso, aniquilando não somente os anjos, mas agindo na Terra e destruindo seus seguidores.
Uriel não podia acreditar no que ouvia. Até que ponto a petulância daqueles espíritos inferiores poderia chegar? Eles era almas humanas evoluídas com as preces dos vivos, mas nunca poderiam fazer frente aos arcanjos, filhos diretos do próprio Criador do universo. Sua resposta seria imediata, ela iria incinerar aquele mensageiro com sorriso zombeteiro e enviar seu corpo carbonizado à seu pai, que auto proclamava deus dos raios, mas nunca seria capaz de criar descargas elétricas como ela.
Porém, antes de executar sua decisão, alguém impediu sua mão de se erguer com a força do pensamento. Ela olhou para trás e sentiu a aura imensamente superior de seu irmão mais velho, o Primogênito, Enmanuel.
- Diga a Zeus e aos outros que a reunião está marcada. - disse Menadel, surgindo das sombras do palácio de Uriel, usando sua costumeira toga branca com uma faixa vermelha. - Tratarei com meus irmãos sobre a melhor data e o local.
Hermes acenou positivamente com a cabeça, reverenciando aquela entidade que era ao mesmo tempo calma e poderosa. Ele mostrou um pergaminho mágico onde o receptor da mensagem deveria assinar, concordando com a reunião. Enmanuel prontamente rubricou e autorizou a saída de Hermes do Paraíso sem que ele fosse molestado.
- O que você fez, irmão? - perguntou Uriel, finalmente sentido a mão livre. Ainda estava flamejante.
- Eu que pergunto o que pretendia fazer, irmã? - ele retrucou calmamente. - Se tivesse atacado um mensageiro, protegido pelas leis universais de hospitalidade, teria declarado uma guerra cósmica de proporções inimagináveis!
- Que leis universais? - ela debochou. - Nós somos a lei! Nós somos a palavra! O Pai nos escolheu, e eles deveria nos venerar antes de se tornarem uma imitação e chamarem a si mesmo de deus! Que piada de mau gosto!
- Não é assim que funciona. Um dia vocês entenderão, principalmente você, querida irmã. - ele já ia se retirando.
- Sabe que Miguel e Lúcifer não vão gostar nada dessa sua decisão sem que fossem consultados, não sabe?
- Deixe que eu cuido de apaziguar os ânimos de nossos irmãos impetuosos. - ele respondeu, sorrindo.
*

O local escolhido para a mais importante reunião do universo até aquele momento foi um salão especialmente construído no Castelo de Júpiter, um gigantesco castelo localizado no quinto reino celestial, logo abaixo do Solarium, a morada de Deus. O salão foi divido em bancadas dispostas como escadas, com centenas de assentos para todos os deus que resolveram participar da reunião. De frente a essas bancadas, sentados em seus seis tronos magistrais, estavam os arcanjos. No nível mais próximo deles, logo de frente, sentavam-se Zeus, Odin, Rá, Vishnu, Ahura Mazda, Amaterasu e outros deuses principais das diversas mitologias de todo o velho mundo. Todos falavam, riam ou discutiam, quando Enmanuel se levantou e pediu silencio, prontamente atendido.
- Eu declaro aberta a Reunião Celestial! - disse ele, levantando ligeiramente as mãos. - Pai, nosso senhor e criador, peço que abençoe esse encontro e nos inspire a encontrar a paz! Com a palavra, o representante dos olimpianos, Zeus!
O rei dos olimpianos e deus dos raios, Zeus, um homem de barba e longos cabelos grisalhos, que na verdade eram formados por nuvens, exibia um porte físico invejável. Se levantou com toda imponência e foi até o centro da rotunda, de onde poderia falar tanto para os deuses quanto para os anjos.
- Obrigado pela saudação, senhor Enmanuel. Que a luz do Criador nos abençoe neste momento sublime. Senhoras e senhores! - sua voz soava como trovão. - Venho representando não somente meus irmãos e parentes olimpianos, mas também aqueles que vieram do norte gelado, do sul desértico, do extremo oriente e de todo o mundo conhecido, implorar para que esta guerra sem sentido termine de maneira pacífica. Vivemos em um mundo diversificado, deixado para nós pela divina providência do criador. Nós, deuses, fomos agraciados com o poder pelas preces de nossos compatriotas, mas nem por isso deixamos de ensinar que há apenas um Deus verdadeiro que deve ser realmente glorificado. Somos todos irmãos, e filhos da mesma força que rege o universo, e uma guerra onde cada vez mais de nós encontramos a morte final é uma carnificina inútil que deve ser deixada de lado em honra à Ele o quanto antes! - o fim do discurso foi coroado com uma salva de palmas de quase todos os deuses pagãos. Pelo menos os que queriam a paz. Do lado dos arcanjos, apenas Enmanuel e Rafael aplaudiram discretamente. Quando Zeus deixou a tribuna, Miguel se levantou, para falar pelo lado dos celestiais. Era um guerreiro com o mesmo porte físico de Zeus, mas se assemelhava aos extremo orientais. Seus cabelos eram lisos e curtos, os olhos amendoados e ariscos, sempre prontos a identificar um inimigo. Como característica mais marcante, usava uma armadura de combate completa, e quase nunca tirava a mão de sua arma, a Espada do Fogo Eterno, uma lâmina forjada antes mesmo do universo e cuja chama jamais se apagava.
- Senhoras e senhores, - começou o discurso como Zeus, mas sua voz era bem menos amistosa, apesar de ser igualmente potente. - é de conhecimento de todos que não fomos nós, os arcanjos, filhos diretos de Deus, que começamos esta guerra. Quem iniciou o combate foram aqueles que, em um ato de total blasfêmia e heresia, se auto proclamaram deuses! Humanos, as últimas criaturas do universo, que por seus atos de bravura, não vou negar, após a morte continuaram sendo cultuados! Ora, dizem que ainda ensinam aos seguidores vivos os louvores ao Criador único e Altíssimo, mas eu não vejo nenhum templo erguido para nosso Pai em suas terras! Eu não ouço o nome Jeová, Yaweh, Demiurgo na boca de seus seguidores, apenas Urano, Pan Ku, Brahma e outras alcunhas que nada tem a ver com a natureza benevolente de nosso Deus único e verdadeiro! Nós, anjos e arcanjos, fomos designados por Ele próprio para sermos defensores ferrenhos da Palavra, e nenhum falso deus deve ser cultuado além Dele! - o arcanjo terminou com um murro na bancada. Um urro seguiu-se, uma mistura de apoio e indignação. Nenhum dos arcanjos se manifestou, embora um sorriso pudesse ser visto nos lábios de Uriel.
A reunião seguiu-se por muito tempo, dias ou séculos, o tempo era relativo no Paraíso. Quase todos tiveram voz na tribuna, uns defendendo a paz, outros a guerra e a destruição da facção rival. Ao final de intensos debates, Enmanuel, a quem nenhum ali presente era tolo de desafiar, mais uma vez ergueu-se e pediu silencio com as mãos levantadas.
- Por votação, assim decidiremos. Quem é a favor do prosseguimento da campanha militar e disputa territorial através da supremacia bélica, levante a mão direita!
Das centenas de entidades ali presentes, poucos levantaram aos mãos apoiando. Entre os arcanjos, Miguel e Uriel apenas, e a abstenção de Lúcifer e Gabriel, até o momento ao lado do irmão combatente, foi uma surpresa. Entre os deuses, poucas mãos também foram erguida, a maioria pelos considerados deuses da guerra, combate ou trevas. Hades, Ares, Set, Thor, Shiva, dentre outros.
- Quem é a favor do acordo que determina que, a supremacia deverá ser decidida através dos cultos humanos, e que a função dos deuses ou anjos deverá ser apenas inspirar e orientar, jamais interferindo ou se relacionando com homens e mulheres mortais, levante a mão direita!

A visível maioria esmagadora levantou a mão, embora esta última parte do acordo, determinada de surpresa, tenha incomodado deuses como Zeus, Afrodite e Ishtar, conhecidos por seus relacionamentos amorosos com mortais. E assim, após uma reunião longa e importante, as Guerras Mitológicas chegaram ao fim com um cessar fogo assinado por todos ali presentes, e até hoje é possível ver naquela mesma rotunda, no Castelo de Júpiter, um quadro onde Enmanuel e Zeus trocaram um caloroso aperto de mãos selando a paz.